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    Um Dilema Pedagógico (Pra Toda Vida)

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    Alexandre Garcia da Silva

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    Um Dilema Pedagógico (Pra Toda Vida)

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Dom Set 02, 2012 6:35 am

    Quando estava no colégio, tive um ótimo professor (aliás, um dos poucos da rede pública de ensino que podia ser assim considerado) de Gramática e de Literatura cujo método de ensino era bastante polêmico.
    O Prof. Elias fazia a classe dividir-se em grupos. E a cada um deles, fazia uma pergunta. Cada acerto, um ponto. Se um grupo errasse ou não conseguisse responder, a pergunta era passada ao grupo seguinte.
    Falando assim, o cenário se apresenta até divertido. E, no início, assim era de fato. Vivíamos a coisa toda como uma saudável competição. Até que...
    O que aconteceu foi que os grupos foram formados entre alunos que tinham maior afinidade entre si (as famigeradas "panelinhas"). Assim, CDF se juntou com CDF. E aluno relapso, com aluno relapso.
    E logo, a diferença se fez presente. Enquanto uns grupos (o meu incluído) conquistavam vários pontos que redundavam em notas excelentes, os outros ficaram numa situação vergonhosa.
    E o clima na sala de aula, que sempre havia sido bom, começou a ficar desconfortável. Os que tinham mais pontos começaram a alimentar uma... discreta arrogância (eu, inclusive); enquanto aos outros restou uma... discreta mágoa.
    Até que, à revelia do Prof. Elias, nós nos reunimos. E decidimos que os mais fortes iriam ajudar os mais fracos.
    Nobre, não?
    Pois é. Para tanto, os grupos com mais pontos passaram a fazer de tudo. Desde passar cola a, até mesmo, errar de propósito para que os grupos mais fracos ficassem com os pontos. E a coisa se equilibrou. A diferença de pontos entre os grupos diminuiu a ponto de os mais fracos contarem com pontos suficientes para, ao menos, ganharem uma nota "C".
    Resolvida a questão? Nada disso. Quem disse que a vida é assim tão simples?
    Logo, os grupos mais forte se deram conta de que os mais fracos, ao invés de aproveitarem a chance para estudarem mais, acomodaram-se à situação.
    Resultado? Nova reunião. À revelia do Prof. Elias. E, desta vez, dos alunos mais relapsos, também.
    "Não é justo! A gente se matando de estudar e eles... Não senhor! Agora, é cada um por si!"
    A cooperação sai de cena. E, de novo, a competição faz ressaltar a gritante diferença entre os alunos. Uns voltaram a ficar com muitos pontos e os outros tornaram à situação vergonhosa.
    E agora? Resolvida a questão? Ainda não.
    É que os mais fortes começaram a sentir culpa. Sentiram como se tivessem abandonado os colegas mais fracos à própria sorte.
    Então, resolveram apelar para a cooperação outra vez.
    Então, os colegas mais fracos voltaram a ficar numa situação melhor.
    Então, Então, os colegas mais fracos se acomodaram à situação de ganhar, de mãos beijadas, os pontos a que os outros faziam por merecer.
    Então, os colegais mais estudiosos novamente se revoltaram com a situação.
    Então...
    O fato é os dois anos no colégio, de aulas com o Prof. Elias, foram uma espécie de pêndulo que oscilava, de forma angustiante, entre os pólos da competição e da cooperação.
    O final da história: uns alunos passaram de ano; outros ficaram de recuperação; outros repetiram de ano.
    O final da história. Não do dilema. Esse me atormenta até hoje. E mesmo hoje, com a maturidade conquista, eu estaria tão perdido, tão perplexo, como estava há quase vinte anos.
    Nos tempos atuais em que tanto se questiona o modelo sócio-econômico vigente que privilegia a competição, a resposta seria fácil: o caminho é a cooperação. Mas, como se diz, o buraco é mais embaixo.
    Além da situação acima delineada, de que a pessoa ajudada tem a inevitável situação de se acomodar à situação deixando, assim de se ater ao devido esforço, há uma outra questão em jogo: é sensato e justo podarmos os mais notáveis para que o desnível entre eles e os demais não aflore?
    O Prof. Elias, com seu método polêmico, brindou-nos com uma grande provocação: o dilema entre cooperar e competir.
    Como na famosa parábola da águia e das galinhas: devemos, mesmo, fazer com que a majestosa ave de rapina continue a acreditar que não passa dum mero galináceo ao invés de conquistar seu reinado nos céus?
    Como disse antes, eu não sei a resposta. Esse é um dilema para a toda vida. Mas, uma coisa eu me arrisco afirmar: a luta pela igualdade é legítima. Mas deve-se tomar o cuidado para que a igualdade não se converta em mediocridade. As galinhas indiscutivelmente têm sua importância mas a águia, jamais, pode deixar de alçar seu voo.

    José Lúcio de Barros

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    Re: Um Dilema Pedagógico (Pra Toda Vida)

    Mensagem  José Lúcio de Barros em Seg Set 17, 2012 1:15 am

    Alexandre, o Prof. Elias tinha mesmo um método polêmico.O que ele precisava era perceber o desnível dos alunos e fazer com que os mais fracos fossem melhor assessorados ou por ele mesmo ou pelos alunos mais aptos. Assim haveria uma integração maior entre todos.Acredito na cooperação sem atiçar a competição.Ainda mais quando a disparidade entre os alunos era evidente.Também não acredito em cooperação para facilitar a avaliação do aluno, para que ele seja aprovado.A cooperação deve ser uma ação visando a aprendizagem, o gosto pelo saber.O ensino precisa ter leveza, profundidade e criatividade para que o ato de aprender seja prazeroso.A sala de aula não é uma pista de corrida de carros para vermos quem chega primeiro.É preciso considerar as diferenças individuais.A prova( semanal, mensal ou anual)não pode ser o alvo maior a ser atingido. Não é justo e sensato, claro, que os mais notáveis se sacrifiquem para que o desnível entre os alunos não aflore.É preciso fortalecer a ideia pela busca do conhecimento como uma fonte vital para a vida.

    Alexandre Garcia da Silva

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    Re: Um Dilema Pedagógico (Pra Toda Vida)

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Seg Set 17, 2012 3:53 am

    Sabe Lúcio, posso estar sendo injusto, mas eu tinha a impressão de que ele, de certa forma, se divertia com o espetáculo do dilema que vivíamos. Ele aplicava aquele método há anos. Era famosíssimo por isso. Creio que ele já sabia de antemão tudo o que iria acontecer. Passávamos a "cola" para que os colegas menos aptos conseguissem fazer seus pontos e o velho prof. Elias fingia não perceber. Sabia que, pelas leis da dialética que ele mesmo criara, a momentânea cooperação se transformaria em competição na semana seguinte. A sala de aula para ele era uma arena pedagógica.
    Independente de ser um ótimo professor ele, quiçá, era um grande filho da puta. Mas do tipo de filho da puta com que todos nós temos que nos defrontar. Não é por acaso que, antes de começar sua peregrinação, Cristo foi ao deserto encontrar-se com o Diabo.

    José Lúcio de Barros

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    Re: Um Dilema Pedagógico (Pra Toda Vida)

    Mensagem  José Lúcio de Barros em Sab Set 22, 2012 12:49 am

    Alexandre, compreendi melhor o que se passava com o professor Elias. É bem possível que ele gostasse de dinâmica de grupo para estimular os alunos. Difícil foi ter professores frios, neutros, desqualificados e indiferentes como eu tive.

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    Re: Um Dilema Pedagógico (Pra Toda Vida)

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