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    Meu Melhor Inimigo

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    Alexandre Garcia da Silva

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    Meu Melhor Inimigo

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Dom Ago 26, 2012 3:47 am

    Platão é considerado uma das pedras fundamentais da Filosofia ocidental. Muito do de se escreveu e se defendeu e se debateu tem origem na sua obra. Ele foi, é e será uma eterna provocação, um infinito desafio.
    E um constante incômodo, também. Admiro-o. Odeio-o. Com a mesma intensidade. O que me obriga, e me atiça a vontade, de dedicar um período da minha vida a debruçar-me sobre sua obra com atenção especial, como já fiz com Nietzsche, por exemplo. E o farei.
    Por ora, o pouco que conheço de suas ideias já é o suficiente para me causar o incômodo de que falei acima. Em especial pelo fato de eu amar e me dedicar às artes.
    Platão era um inimigo declarado das artes. E dos artistas.
    Surpreso, meu caro? Imagino que você deve imaginar: "Como?! O cara era um filósofo, certo? Um sujeito esclarecido! Como poderia incorrer numa ignorância dessas?"
    Pois é.
    Pois é justamente essa mesma "ignorância" um dos pilares das tais verdades platônicas. Verdades tais que herdaram uma série de equívocos que, de tão entranhadas na nossa cultura, contamina até mesmo o nosso linguajar cotidiano.
    Platão, como todos nós, via as coisas ao nosso redor. E todas as coisas ao nosso redor estão sujeitas à fome insaciável do tempo. A maçã que cintila feito rubi amanhã estará apodrecida; a criança que agora ri sua inocência será o velho alquebrado que chorará a miséria da sua condição.
    Mesmo as montanhas, os impérios e as estrelas, cuja existência ultrapassa em muito à da vida humana, têm sua fragilidade. Um dia, fatalmente, o tempo os matará também.
    No mundo físico, sujeito à ação do tempo, nada dura. Nada é para sempre. Portanto, nada é. O que é o homem? Não é mais aquela criança que ria sua inocência. E ainda não é o velho que chorará sua miséria.
    Assim, Platão, herdando uma tradição que já vinha de filósofos anteriores, Parmênides, principalmente, concluiu que deveria haver um mundo perfeito, imaterial, ideal, do qual este nosso pobre mundo físico nada mais seria que uma cópia grosseira. No mundo perfeito as coisas não degeneram, não apodrecem, não morrem. Não estão sujeitas à ação do tempo. Não estão, aliás. Elas SÃO. Ontem, hoje, amanhã, sempre.
    E a maçã que cintilava feito rubi e apodreceu? Assim como todas as maçãs que já foram produzidas no mundo, nada mais é do que uma cópia da MAÇÃ ideal. A maçã ideal sempre cintilou e sempre cintilará feito rubi. Pois o que é perfeito não perece.
    O Cristianismo adotou tal filosofia. Todos os que têm formação cristã, sejam católicos ou protestantes, não aprendem que este mundo material é imperfeito? Sujeito ao pecado? Que há um mundo perfeito no plano espiritual onde ninguém jamais morrerá novamente? Todo cristão é platônico à sua maneira, sem se dar conta disso.
    E mesmo nos problemas amorosos tratados de forma tão banal nos dias de hoje não há os que falam, sempre, em como encontrar o par ideal? O homem ideal? A mulher ideal? O que, convenhamos, só tende a aumentar nossa frustração, já que o perfeito não existe? Ao menos não fisicamente?
    E onde entra, nisso tudo, o desprezo de Platão pelos artistas?
    O artista, segundo Platão, ao criar, terá como modelo as coisas deste mundo. Assim é com o pintor que retrata uma paisagem, com o escultor que reproduz a imagem de uma pessoa determinada. O problema dos artistas é que eles elegem como modelos as coisas deste mundo que, pela própria natureza, são cópias grosseiras das coisas que compõem o mundo ideal. Ou seja, o artista nada mais faz do que fazer a cópia da cópia! Se as coisas deste mundo não são verdadeiras, o artista, com seu ofício, só alimenta a mentira, a ilusão, o erro.
    O que Platão jamais compreendeu é que o artista, na verdade, não copia. Ele recria. Um santo pintado por Caravaggio não fala nem respira como uma pessoa real. Mas as qualidades estéticas no uso da cor e da luz em sua obra dão novos significados a esses elementos que, na natureza, não passam de mero fenômenos físicos.
    A sensibilidade do artista tem o poder de dar novos sentidos a qualquer coisa. Mas, para isso, ela precisa ser alimentada pelo meio físico que o cerca. Isso Platão jamais compreendeu. Felizmente, a despeito de toda a influência que ele exerceu no mundo ocidental, as pessoas jamais deixaram de apreciar o trabalho do artista. Que é um trabalho de recriação, não de cópia.
    E, ironicamente, o maior discípulo de Platão, Aristóteles, opôs-se totalmente ao pensamento do seu mestre. Aristóteles afirma em "Arte Poética" que a cena de algo repugnante, um cadáver, por exemplo, é insuportável às pessoas. Mas, quando essa mesma cena é retratada por um artista, passa a ser magnífica. Quem acha inacreditável tal afirmativa é só reparar nos quadros cujo tema são batalhas. Não são imponentes? Lindos? Apesar do horror dos fatos neles retratados?
    Ao contrário de Platão, Aristóteles teve sensibilidade para compreender essa maravilhosa alquimia que rege o trabalho dos artistas.

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