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    O Real Significado da Devoção à Beleza?

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    Alexandre Garcia da Silva

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    O Real Significado da Devoção à Beleza?

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Ter Ago 21, 2012 4:11 am

    Ainda aos 18 anos ela foi bailarina (chegou a ser uma promissora aluna da lendária bailarina Isadora Duncan). Mas se destacou no mundo das artes como cineasta, já nos anos 30 do século XX (numa época em que o cinema, como todas as áreas profissionais, era exclusivamente dominada por homens). Antes de passar à direção, foi atriz na Alemanha. Na época, o povo alemão adorava filmes de aventura passados em montanhas nevadas e em despenhadeiros. Numa das cenas, chegou a ser soterrada e quase morreu de verdade (as filmagens eram feitas em cenários reais)!
    Mas ela não morreu. Salvou-se da neve, conquistou seu lugar ao sol e passou à história da 7ª Arte, dentre outros motivos, pela cobertura das Olimpíadas de 1936, com uma beleza e técnicas até hoje insuperáveis! E isso numa época em que nem em sonhos se dispunha da tecnologia que há nos dias de hoje!
    Anos atrás, li uma reportagem sobre essa cineasta na Folha de São Paulo. Na época, Leni Riefenstahl filmava tribos na África (Sudão, se não me engano). Uma declaração dela chegou a me tocar. Não guardei as palavras exatas (a burrice não me permitiu nem guardar o recorte). Mas posso dizer que ela afirmava ser a sua carreira uma busca incessante pela beleza.
    Tocante, não?
    Agora, o dado desconcertante:
    Leni Riefenstahl era a cineasta oficial de Adolf Hitler!
    Volta e meia, quando a TV mostra alguma matéria sobre o nazismo, há aquelas do comício monstruoso feito por Hitler, já viram? As imagens, a despeito do seu significado maligno, são imponentes. Mérito de dona Leni.
    Claro. Ela pagou caro. Chegou a ser presa quando os alemães perderam a guerra, sua carreira ficou inevitavelmente marcada por esse fato, em todas as suas entrevista teve que, inevitavelmente, responder às mesmas perguntas. A vida se transformou num eterno interrogatório.
    Claro. Há os que a defendem. Ela nada teve a ver com os massacres impostos aos judeus e a todos os opositores do regime nazista. Nada teve a ver com as ordens dadas, com as execuções realizadas. Seu único envolvimento foi com a criação artística. Era uma época em que as pessoas não tinham o distanciamento histórico necessário, como o que nós temos, para avaliar devidamente o que aquele austríaco louco do bigodinho ridículo poderia causar ao mundo (aliás, todo o mundo demorou e muito para acordar; quando isso aconteceu, era tarde demais!). Leni admirava incondicionalmente artistas que todos sabiam ser judeus. Até tinha amizade com alguns deles. Eis a polêmica.
    A minha opinião? Leni era uma artista integral. Não se interessava por política. Não tinha, de fato, condições de avaliar o lodaçal em que estava se metendo. Mas...
    Lembram-se do que foi dito acima? Sobre a busca incessante pela beleza? Pois é. Depois dessa confusão entre a filosofia grega e a religião judaico-cristã em que se transformou nossa cultura ocidental, aprendemos a associar a ideia de beleza à ideia de bem. Os gregos eram obcecados pela beleza (como a nossa Leni Riefenstahl). Mas, ao contrário da gente, não dividiam seu universo físico e moral entre bem e mal. Que, aliás, tinham para eles noções e acentos diferentes dos nossos. A ideia de beleza liga-se muitas vezes (se não sempre) à de força, de esplendor. A nossa bondade de fundo cristão nos leva a cultivar a caridade pelo fraco, a cuidar do debilitado. Tais coisas repugnariam a uma pessoa de espírito tão estético quanto nossa Leni, pois o feio, ao invés de causar compaixão, enoja. Disse acima que Leni chegou a ir à África filmar tribos que ainda preservavam seu modo de vida dito primitivo. Quando se fala em África pensa-se necessariamente naquelas pessoas miseráveis, maltratadas pela fome e pelas sangrentas guerras civis que afligem o pobre continente. Mas eu me lembro do que vi nas fotos dos negros filmados pela cineasta alemã: todos fortes, viris. Guerreiros imponentes que nem de longe lembravam aquelas pessoas que costumam nos oprimir o coração.
    Leni Riefenstahl era uma artista na verdadeira acepção da palavra. Sensível. Mas a sensibilidade de um artista é diversa da de um praticante da caridade. O artista volta-se somente para a beleza. O caridoso, para a fraqueza. O artista quer admirar. O caridoso, cuidar.
    A minha opinião? Leni Riefenstahl jamais seria capaz de contribuir para a execução de todo aquele genocídio que marcou a Segunda Guerra Mundial. Mas também não se sensibilizaria com a sorte daqueles pobres judeus nos campos de concentração que, justamente pelas torturas, em nada lembravam a beleza de uma figura humana.

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