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    A Quietude dum Gigante

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    Alexandre Garcia da Silva

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    A Quietude dum Gigante

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Sab Ago 11, 2012 3:46 am

    Antes de mais nada, peço que me perdoem se pareço me gabar. A intenção não é essa.
    Ao longo dos tropeços pela vida, acabei tendo a chance de conhecer, superficialmente, algumas capitais brasileiras além da nossa Sampa: Salvador (onde nasci), Maceió, Fortaleza, Florianópolis, Curitiba e Belo Horizonte. Nada mal, não é? Não. Não foram viagens assim tão marcantes (em outro tópico abordarei o tema das viagens).
    O que pretendo falar neste tópico é sobre uma conclusão besta extraídas dessas igualmente viagens bestas: há dois tipos de metrópoles no Brasil.
    Uma delas é bem conhecida no imaginário popular e abordada pela mídia que, para vender seus produtos, apostam nos estereótipos que os brasileiros, por preguiça de pensar, usam para verem a si mesmos e ao seu país: a metrópole tropical. De frente para o mar, com suas praias e calçadões, iluminadas por um verão que doura todos os 365 dias do ano. Prenhes de gringos em busca do sexo supostamente fácil, do futebol e da cerveja com os amigos cretinos naquela felicidade igualmente cretina que despeja pelas avenidas amplas os risos fáceis de uma juventude que se quer eterna e eternamente irresponsável... eu estou falando de uma cena da novela da Globo ou de um comercial de cerveja?
    Mas há a outra metrópole. Completamente ignorada porque aceitamos o estereótipo do país tropical. E como tudo que é ignorado, conta com minha empatia.
    Falo da metrópole intimista. Que paradoxo! O termo metrópole sempre evoca ideias de gigantismo, de prédios que bulinam os céus e de avenidas que assustam com sua hemorragia barulhenta de carros e ônibus! Intimista? Pois.
    Assim é principalmente Sampa. Mas também, pela imprensão que me causou, Curitiba e Belo Horizonte. A Geografia ajuda na definição. Tais Capitais não se abrem para o Atlântico, ao contrário das demais. Seus moradores e transeuntes não se deparam com um espaço aberto para o amplo azul do céu e do mar. Ao contrário. Apesar das tais avenidas com suas hemorragias, há também as ruas espremidas entre prédios, modernos e antigos. A cor a reinar é o cinza. Frio, quieto, recolhido. E esse cinza de granito, que acizenta o anil do pouco céu que escapa dos prédios e da fumaça, torna as pessoas frias, quietas e recolhidas. E, ao contrário do que se dá nas metrópoles tropicais, nas intimistas as pessoas não transam a cidade com biquínis e sungas mas, sim, com jaquetas e cachecois. Nas metrópoles intimistas a sensualidade dá lugar à solenidade. E como não há mares e infinitos azulados a serem gozados, a opressão das fachadas e a violência das buzinas nos obriga a olhar para dentro, para nosso íntimo. Busca-se a beleza não no corpo seminu que passa ao lado mas, sim, nas fantasias silenciosas que jazem sob nossas meninges.
    Mas, diriam, quiçá, alguns, isso não é ser brasileiro. É coisa de europeu. Pois eu digo que isso é ser brasileiro sim, senhor!
    Não adianta. Eu nasci em Salvador. Mas me criei em Sampa. Por isso, ao invés de tropical, sou intimista. E sou mais brasileiro e mais humano do que as figuras vazias que cansamos de ver em cenas de novelas da Globo. Ou nos comerciais de cerveja.

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