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    E Não É Que Alguém Me Entendeu?

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    Alexandre Garcia da Silva

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    E Não É Que Alguém Me Entendeu?

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Qui Ago 09, 2012 3:47 am

    Adolescência sempre é uma fase complicada. Seja a dos tempos atuais, dos anos 80 (a minha) ou a da Inglaterra Vitoriana. Perde-se a inocência da infância sem se ganhar a sabedoria que vem com a maturidade. Sente-se uma energia capaz de mudar o mundo e tem-se dúvidas que paralisam todas as ações.
    E, claro, a sensação de não ser compreendido. Muitas vezes, nem pelos outros adolescentes. Eu, como tantos, exclamei também o famoso "Ninguém me entende!"
    Mas, pior do que a incompreensão dos pais, é a incompreensão daqueles que produzem artigos culturais para jovens, mais especificamente filmes, músicas e programas de TV.
    O que se nota cada vez mais nos dias de hoje (embora tal coisa já ocorresse nos, digamos, meus tempos)? O adolescente ser tratado como um perfeito imbecil. Principalmente nos filmes norte-americanos. Comédias descerebradas onde jovens de ambos os sexos nada mais são do que animais sempre no cio e que não sabem fazer outras coisas que não embebedar-se.
    Claro, filmes ruins sempre houve. E nos meus saudosos e queridos anos 80 não era diferente. Mas, havia uma diferença. Havia alguém que fazia a diferença. Um diretor.
    John Hughes.
    Nos saudosos tempos eu, como tantos outros, assisti a praticamente todos os filmes em que ele se envolveu seja como diretor seja como produtor. Mas, só agora descobri o artista. E descobri o quão artista ele foi!
    Chamado de "Spielberg" das comédias adolescentes, John Hughes fez filmes que divertiram e muito os que hoje são trintões ou quarentões como eu. Mas, só agora que sou trintão é que tenho a maturidade suficiente para melhor avaliar seu trabalho. E gostar ainda mais dele.
    Sabe o que eu disse acima do retrato dos jovens nas atuais comédias adolescentes? Pois é. Nas comédias de Hughes também haviam as mesmas presepadas que nós cometemos, ou tentamos cometer. Mas havia um algo a mais.
    Humanidade.
    Ninguém entende os adolescentes? Mentira. Hughes os compreendeu muito, muito bem. Viu que, por trás das brigas, das confusões, havia insegurança, dúvidas, expectativas, ideais, sentimentos... humanidade.
    E que filmes foram esses, meu Deus do céu? Bom, aqui vai uma pequena lista. Sei que vocês assistiram a alguns, ou todos: "A Garota de Rosa-Shocking", "Gatinhas e Gatões", "Curtindo a Vida Adoidado", "Clube dos Cinco"...
    Nos filmes de Hughes, os adolescentes não são tipos ridículos. São pessoas. Têm alma, sobretudo

    Alexandre Garcia da Silva

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    Re: E Não É Que Alguém Me Entendeu?

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Qui Ago 09, 2012 4:09 am

    De Hughes, é pertinente falar de duas coisas: de um filme e de sua musa.
    Comecemos pela musa.
    Molly Ringwald. Lembra-se dela, trintão? Ou quarentão? Da ruivinha que estrelou "A Garota de Rosa Shocking", "Gatinhas e Gatões" e "Clube dos Cinco"?
    Ela não era um padrão de beleza. E não seria hoje também. Principalmente hoje, em tempos de panicats malhadas em academia. E apesar disso, ou por causa disso... como era linda! Seu charme estava principalmente no fato de encarnar um tipo estranho, fora dos tais padrões que só encantam aos homens mais burros.
    Seu primeiro com Hughes, e o primeiro de sua carreira, se não me engano, foi justamente "A Garota de Rosa Shocking". Ela conta numa entrevista que, na 1ª reunião com os produtores, enquanto aguardava a chegada de Hughes, ela imaginava-o velho, sisudo, até que chega um cara esquisitão, com seus 30 e poucos anos e os cabelos espetados típicos da época. Empatia à 1ª vista. Não. Amor mesmo. Da parte dele. Tenho séria desconfiança de que John Hughes, enquanto viveu, amou secretamente a tal ruivinha que, outra desconfiança minha, lembrava-lhe um amor não correspondido em sua adolescência. Ao longo dos anos, Hughes brigou com os estúdios para que os papeis principais fossem de Molly (o que era complicado já que ela, como já disse, não se encaixava no tal padrão de beleza) e brigava feio com os outros atores que implicavam com ela durante as filmagens.
    Em "A Garota..." Hughes foi o produtor e o roteirista. Numa escola pública, os alunos dividem-se em duas categorias: os ricos e os pobres, que sofrem humilhações daqueles. Molly faz a garota pobre que comete o pecado de se apaixonar por um dos riquinhos que, por sua vez, também se interessa por ela, enfrentando o preconceito dos seus outros amigos. Molly também tem um grande amigo, Duckie (o ator Jon Cryer que hoje brilha no seriado "Two Half Men" ao lado de Charlie Sheen), um esquisito carismático que, na verdade, a ama loucamente. O bom e velho triângulo amoroso.
    A ideia original de John Hughes era a de que, no final, Molly ficasse com Duckie, já que ambos pertenciam ao mesmo grupo social e ele a ama de verdade, mais até do que o amado rico. E eu torci por ele. Ah, como eu torci (eu me vi nele)! Em exibições-testes, todavia, o público feminino rejeitou tal ideia. Queriam que ela ficasse com o rico (acho que o fato de ele ser "bonitinho" pesou). Então, Hughes foi obrigado a reescrever o final e o diretor e o elenco, a rodarem cenas novas.
    Agora, a minha louca teoria: o personagem Duckie era o alter ego de Hughes. O roteiro deve ter sido bastante autobiográfico (aliás, toda obra de arte é autobiográfica à sua maneira). Hughes queria realizar no cinema um sonho que ele, talvez, não tenha conseguido na vida real. E o irônico é que, por causa do público, nem na ficção ele conseguiu! Nem na tela grande ele pode ficar com a sua garota de rosa-shocking!

    Alexandre Garcia da Silva

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    Re: E Não É Que Alguém Me Entendeu?

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Qui Ago 09, 2012 4:25 am

    Agora, o filme. Ao contrário dos outros, esse eu só descobri depois de adulto. "Clube dos Cinco". Cinco alunos de uma escola qualquer cometem peraltices. Como castigo, são obrigados a passar todo o sábado na mesma escola na companhia do diretor, e a escrever uma redação a respeito do fato. São cinco figuras típicas: o CDF, o marginal, a esquisita, o atleta e a queridinha da escola (esse é o papel de Molly Ringwald).
    De início se estranham, se detestam. As brigas são constantes. Mas, aos poucos eles vão se revelando. São cinco figuras típicas, não é? Mas eu disse que nos filmes de Hughes, os jovens são mais do que tipos, são seres humanos. Então, quando as máscaras dos cinco caem e eles se revelam, o filme, uma simples comédia adolescente, ganha outra dimensão. A dimensão digna dos melhores dramas já produzidos pela 7ª Arte.
    Então eles se dão conta de que o que está errado em suas vidas é justamente o fato de que eles sempre se sujeitaram aos papeis, aos tipos, que lhe foram impostos. A personagem de Molly, por exemplo, por ser a queridinha, sempre devia ser educada, elegante etc. O CDF sempre deveria tirar as melhores notas. O atleta conta uma história de que só aplicou o famoso bullyig num colega porque era isso que todos os atletas fortões da escola faziam com os alunos mais fracos. E por aí vai.
    Eu ri com o filme. Me encantei, me surpreendi. E até chorei em algumas cenas. Por que eu também, durante muitos anos, encarnei involuntariamente um papel que me obrigava a agir e a reagir de determinada forma, independente do que eu realmente estivesse sentindo!
    Fica aqui a minha dica. Se não viram esse filme ainda, vejam. Está disponível em DVD. Se viram no tempo em que faziam colégio, assistam a ele novamente. Assim vocês compreenderam o artista maravilhoso que era esse cara que "apenas" fazia comédias para o público adolescente.
    P. S.: uma curiosidade - os personagens de Molly e do marginal (não me recordo o nome do ator) brigavam muito para terminarem o filme trocando juras de amor eterno. Na vida real, os dois atores brigaram feio pra valer (sem direito às tais juras). O que fez John Hughes? Chegou no cara e disse: "Ou você pára de pegar no pé dela, ou tá fora do meu filme!" Se isso não era amor, eu não sei o que é amar!

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